VIRTUAL I
Por que chegastes sem me avisar,
com o olhar tão vazio?
Feito uma lua num rio,
Que abraça o tempo que finda.
Se eu soubesse deste encontrar, arrumaria os cabelos.
Me fartaria de zelos.
E te diria: BEM-VINDA, Flor!
ADICIONADÍSSIMA no virtual da tela
E muito mais ainda no real deste meu quase-velho e sonhador coração.
Seja eternamente bem-chegada
E fique, sempre que possível, por perto que estarei feliz.
Um afeto do tamanho do Rio AQmazonas : eu
***
Marcia, querida !
VIRTUAL II
Se vendes flores não sei!
Ou quantos anjos terás no sorriso.
Eu te empresto o meu juizo, no início do real.
Como serão tuas mãos?
Decerto teu coração ainda sonha,
Com o pudor e a vergonha.
De quem não quer fazer mal.
Outro beijo e outro queijo : eu
***
Flor!
VIRTUAL III
Ah! se entre nos não ouvesse um mar,
Que alaga o meu paradeiro, pois eu te vi por inteiro.
Mas demorei a chegar.
E em que quarto de hotel, sem estrelas,
Esconderei tua rima,
Que me eternece e anima.
Pra um dia eu te abraçar.
***
MAIS QUE UM DETALHE!
Antes que alguma chuva me molhe,
Ou meu doce mundo encalhe.
Se o teu abraço acolhe.
Tomara que eu nunca te falhe.
Mesmo quando a vida me tolhe.
Ou o anjo-da-guarda me ralhe.
Lembro o teu sorriso que me escolhe.
E ISTO NEM É SÓ MAIS UM DETALHE.
Aí vem o versejar que me bole.
E eu juro que é isto que vale.
Um beijo e um queijo : eu
***
Marcia, minha flor da margem esquerda do Amazonas!
Que brilho de fogo em cada letra!
Quem te deu o direito de tanta intimidade com as palavras!?
Adorei a leveza de alguma sagitariana que fala de refazer os votos de fé,
E que gosta de "Perfume de mulher".
Pronto, minha bacaninha, te conheço, razoavelmente, bem.
Tá sabiá.
Um afeto a dona do blog.
eu
Alcyr é um querido!
É outro mágico amigo que vive na Amazônia construindo pontes (entre mundos)... Suas palavras fáceis e, talentosamente, articuladas na moldura da simplicidade lembram-me o orvalho da manhã e o cheiro de terra molhada do meu chão amazônico.
Obrigada pelas suas generosas palavras!
quinta-feira, 24 de abril de 2008
sábado, 22 de março de 2008
Quando eu coloria histórias sobre Ele

Às vezes, assusta-me a proximidade que tenho com Ele.
Não o temo. Jamais o ignoro.
Tudo agora se resume à contemplação e respeito.
Levei, pelo menos, uns 30 anos para transformar minha relação com o Cristo. E, hoje, posso dizer que há três passagens, no Evangelho, que marcaram essa trajetória de transformação: Os quarenta dias no deserto, Jesus no Monte das Oliveiras e César a indagá-lo sobre sua coroa, seu reino e seus súditos, antes lavar as mãos. Mas para chegar a elas percorri um longo e, por vezes, torto caminho.
Quando nasci, meus pais decidiram que eu seria católica. Assim, fui batizada e na impossibilidade biológica de fazer os votos de cristã alguém os fez por mim, mas eu mesma os renovei, anos mais tarde, ao aceitar o sacramento da Crisma.
Cresci colorindo pequenos livros com passagens do Evangelho: Jesus o pescador, Jesus nas Bodas de Caná, Jesus caminhando sobre as águas; Jesus no Sermão da Montanha, Jesus multiplicando os pães, enfim, Jesus em todas as suas faces de absoluto (Deus).
Minha educação formal começou num Jardim de Infância católico, construído nos fundos de uma igreja. Posso ver-me, agora, debruçada sobre uma pequena mesa azul, entre lápis e pincéis coloridos, a decidir quais as cores mais apropriadas para cada história.
Ao final da atividade, a professora nos fazia mostrar as pinturas e nos contava a história delas. Fui alfabetizada na cartilha cristã.
O tempo passou e a vida, aos poucos, foi me mostrando que aquelas não eram as únicas histórias que se contavam sobre o Nazareno. Por algum motivo, que eu ainda não compreendia, a igreja hierarquizava essas histórias, recortando e limitando o nosso modo pensar Jesus.
E foi assim, por esse caminho torno, que aprendi a amar, profundamente, os ensinamentos daquele homem-deus.
O medo, de não fazer o que deveria ser feito; a incerteza, sobre qual a melhor decisão; a culpa, por não ser santo; a falta de fé, naquilo que não sou capaz de ver; o pecado, que me condenava ao inferno e a dúvida, sobre a vida e a morte, ora me afastavam, ora me aproximavam desse homem-deus.
Até que um dia, olhando no fundo da minha alma antiga, e sem palavras, Ele me fez compreender a maior de todas as minhas verdades: Jesus me ama, porque, antes de tudo, foi homem como eu.
E isso sempre esteve nas escrituras, talvez não tão claro naquela seleção de histórias que eu coloria, mas sempre esteve lá.
Os quarenta dias no deserto. A fome, a sede e as tentações e alucinações estão entre as manifestações mais humanas que conheço. Elas simbolizam nossas necessidades biológicas, materiais, mundanas, espirituais, mentais e animais. O deserto é a metáfora do mundo. A todo instante, dentro do nosso deserto, sentimos fome e sede pelo que nos pertence, ou não; temos alucinações sobre sonhos possíveis, ou não; somos tentados, traídos, amados e odiados e ainda afrontados pelo direito-deve da Escolha. Jesus escolheu, mas não sem antes ir ao deserto, em que nos encontramos.
Indagado, por César, sobre sua coroa, seu trono e seus súditos, Jesus apenas disse: Meu reino não é deste mundo! Demonstrando absoluta fé naquilo que só ele via. Aceitando, mesmo sem compreender, que era preciso cumprir sua Via Crucis. E se um homem pôde acreditar, fielmente, naquilo que só ele via, por que eu não?
Mas a passagem mais fascinante é a prece no Monte das Oliveiras, momentos antes de ser preso. Ali, Jesus se coloca como o mais frágil dos humanos. Completamente apavorado, diante do horror que estava prestes a viver, e prostrado diante de um Pai que só ele via, ele teve Medo. E eu também tenho.
Às vezes, assusta-me a proximidade que tenho com o Cristo, depois que perdi o medo dele. Suas escolhas, que antes me humilhavam, pela sua natureza divina, agora, me inspiram, assim como suas fraquezas, tão humanas, agora, me libertam.
E ao contrário do que pode parecer, pensar num Cristo, tão humano, quanto eu, só me aproxima ainda mais dele. E apesar de não ter comparecido à cerimônia do Cristo Morto, sinto-me mais cristã do que na época em que coloria histórias sobre Ele.
Não o temo. Jamais o ignoro.
Tudo agora se resume à contemplação e respeito.
Levei, pelo menos, uns 30 anos para transformar minha relação com o Cristo. E, hoje, posso dizer que há três passagens, no Evangelho, que marcaram essa trajetória de transformação: Os quarenta dias no deserto, Jesus no Monte das Oliveiras e César a indagá-lo sobre sua coroa, seu reino e seus súditos, antes lavar as mãos. Mas para chegar a elas percorri um longo e, por vezes, torto caminho.
Quando nasci, meus pais decidiram que eu seria católica. Assim, fui batizada e na impossibilidade biológica de fazer os votos de cristã alguém os fez por mim, mas eu mesma os renovei, anos mais tarde, ao aceitar o sacramento da Crisma.
Cresci colorindo pequenos livros com passagens do Evangelho: Jesus o pescador, Jesus nas Bodas de Caná, Jesus caminhando sobre as águas; Jesus no Sermão da Montanha, Jesus multiplicando os pães, enfim, Jesus em todas as suas faces de absoluto (Deus).
Minha educação formal começou num Jardim de Infância católico, construído nos fundos de uma igreja. Posso ver-me, agora, debruçada sobre uma pequena mesa azul, entre lápis e pincéis coloridos, a decidir quais as cores mais apropriadas para cada história.
Ao final da atividade, a professora nos fazia mostrar as pinturas e nos contava a história delas. Fui alfabetizada na cartilha cristã.
O tempo passou e a vida, aos poucos, foi me mostrando que aquelas não eram as únicas histórias que se contavam sobre o Nazareno. Por algum motivo, que eu ainda não compreendia, a igreja hierarquizava essas histórias, recortando e limitando o nosso modo pensar Jesus.
E foi assim, por esse caminho torno, que aprendi a amar, profundamente, os ensinamentos daquele homem-deus.
O medo, de não fazer o que deveria ser feito; a incerteza, sobre qual a melhor decisão; a culpa, por não ser santo; a falta de fé, naquilo que não sou capaz de ver; o pecado, que me condenava ao inferno e a dúvida, sobre a vida e a morte, ora me afastavam, ora me aproximavam desse homem-deus.
Até que um dia, olhando no fundo da minha alma antiga, e sem palavras, Ele me fez compreender a maior de todas as minhas verdades: Jesus me ama, porque, antes de tudo, foi homem como eu.
E isso sempre esteve nas escrituras, talvez não tão claro naquela seleção de histórias que eu coloria, mas sempre esteve lá.
Os quarenta dias no deserto. A fome, a sede e as tentações e alucinações estão entre as manifestações mais humanas que conheço. Elas simbolizam nossas necessidades biológicas, materiais, mundanas, espirituais, mentais e animais. O deserto é a metáfora do mundo. A todo instante, dentro do nosso deserto, sentimos fome e sede pelo que nos pertence, ou não; temos alucinações sobre sonhos possíveis, ou não; somos tentados, traídos, amados e odiados e ainda afrontados pelo direito-deve da Escolha. Jesus escolheu, mas não sem antes ir ao deserto, em que nos encontramos.
Indagado, por César, sobre sua coroa, seu trono e seus súditos, Jesus apenas disse: Meu reino não é deste mundo! Demonstrando absoluta fé naquilo que só ele via. Aceitando, mesmo sem compreender, que era preciso cumprir sua Via Crucis. E se um homem pôde acreditar, fielmente, naquilo que só ele via, por que eu não?
Mas a passagem mais fascinante é a prece no Monte das Oliveiras, momentos antes de ser preso. Ali, Jesus se coloca como o mais frágil dos humanos. Completamente apavorado, diante do horror que estava prestes a viver, e prostrado diante de um Pai que só ele via, ele teve Medo. E eu também tenho.
Às vezes, assusta-me a proximidade que tenho com o Cristo, depois que perdi o medo dele. Suas escolhas, que antes me humilhavam, pela sua natureza divina, agora, me inspiram, assim como suas fraquezas, tão humanas, agora, me libertam.
E ao contrário do que pode parecer, pensar num Cristo, tão humano, quanto eu, só me aproxima ainda mais dele. E apesar de não ter comparecido à cerimônia do Cristo Morto, sinto-me mais cristã do que na época em que coloria histórias sobre Ele.
domingo, 16 de março de 2008
Feliz és tu que acreditastes (Lc 11,28) na Anima Mundi

Saí. Bati a porta com o coração aos prontos, mas determinada e confiante no futuro. Deixei a chave no encaixe da fechadura e construí algumas pontes, que iluminei, cuidadosamente, talvez para ter certeza de que saberia voltar, se precisasse. E assim, feito João e Maria, entrei na floresta deixando um rastro de miolo de pão, sem perceber que as aves, famintas, apagavam minha trilha.
Quando eu era criança me ensinaram que os crentes sempre são felizes. E quem não quer ser feliz? Então, acreditei! O que eu ainda não sabia era que acreditar é verbo transitivo, ou seja, é carente, por definição, de complementos. Sozinho é ambíguo e incompleto de sentido. E isso é muito mais do que uma querela sintático-semântica da Língua Portuguesa. Acreditem!
Desde, então, venho aprendendo a reconhecer esses complementos: afinal, quem não quer ser feliz? E hoje sei que todo crente que prospera na prática do acreditar é antes de tudo: fiel, perseverante e confiante.
Fiel as suas crenças, incansável na busca daquilo que se acredita e confiante nas coisas e pessoas necessárias para tornar viável o que se acredita. E quando esses três atributos se articulam, eis um homem de fé.
Achei que tinha descoberto o fogo, até que um dia me dei conta de que o fiel, o perseverante e o confiante/confiável são atributos qualificativos de um sujeito e não, necessariamente, de todos. Portanto, restritivamente, nem todos somos fiéis, perseverantes e confiantes/confiáveis.
Achei que tinha descoberto a roda, até que outro dia me dei conta de que a norma culta da Língua não dava conta de explicar o que estava diante de mim, que diante da anima mundi percebia, perplexa, que "ser" fiel, perseverante e confiante/confiável é, na verdade, um "estado", um modo de ser, num dado momento, e não um ser em si, absoluto.
Ninguém é, as pessoas “estão” fiéis, perseverantes e confiáveis/confiantes (crentes).
E desses três estados de alma o mais complexo me pareceu aquele relacionado à confiança. Ninguém confia apenas porque quer, não temos o domínio sobre ela. A confiança só se estabelece, porque alguém se manifesta confiável; a confiança não mora em mim, que confio, e, sim, em ti, que se manifestou confiável. Logo, querer estar confiável é condição primeira. Logo, tu és responsável pelo estado de confiança que despertartes em mim.
Essa consciência (superior), que condena uns e salva outros, não necessariamente nessa ordem, atribuiu novos significados as minhas crenças, colocando-me, mais vez, diante da responsabilidade pelo bom uso do meu livre arbítrio e lembrando-me que o presente, o passado e o futuro estão inexoravelmente ligados as minhas escolhas.
E assim, diante da anima mundi, escolhi:
Quero continuar em “estado” crente - fiel, perseverante e confiante no que se manifesta confiável, o que inclui a mim mesma, mesmo quando a recíproca não for verdadeira, mesmo quando admitir o engano for tudo que me resta.
Saí. Bati a porta com o coração pequeno e calmo. Determinada e confiante no futuro joguei a chave fora, não construí nem iluminei pontes e não deixei rastro de miolo de pão, mas olhei para trás, pois queria ter certeza de que não me transformaria em pedra de sal. Caminhei por um longo tempo sob uma chuva fina, que mais parecia um lamento, e aos poucos a vida foi se apresentando a mim plena e confiável.
E eu?
Refiz meus votos de fé no fluxo da vida, pois se nada acontece por acaso, felizes são os acreditam.
Quando eu era criança me ensinaram que os crentes sempre são felizes. E quem não quer ser feliz? Então, acreditei! O que eu ainda não sabia era que acreditar é verbo transitivo, ou seja, é carente, por definição, de complementos. Sozinho é ambíguo e incompleto de sentido. E isso é muito mais do que uma querela sintático-semântica da Língua Portuguesa. Acreditem!
Desde, então, venho aprendendo a reconhecer esses complementos: afinal, quem não quer ser feliz? E hoje sei que todo crente que prospera na prática do acreditar é antes de tudo: fiel, perseverante e confiante.
Fiel as suas crenças, incansável na busca daquilo que se acredita e confiante nas coisas e pessoas necessárias para tornar viável o que se acredita. E quando esses três atributos se articulam, eis um homem de fé.
Achei que tinha descoberto o fogo, até que um dia me dei conta de que o fiel, o perseverante e o confiante/confiável são atributos qualificativos de um sujeito e não, necessariamente, de todos. Portanto, restritivamente, nem todos somos fiéis, perseverantes e confiantes/confiáveis.
Achei que tinha descoberto a roda, até que outro dia me dei conta de que a norma culta da Língua não dava conta de explicar o que estava diante de mim, que diante da anima mundi percebia, perplexa, que "ser" fiel, perseverante e confiante/confiável é, na verdade, um "estado", um modo de ser, num dado momento, e não um ser em si, absoluto.
Ninguém é, as pessoas “estão” fiéis, perseverantes e confiáveis/confiantes (crentes).
E desses três estados de alma o mais complexo me pareceu aquele relacionado à confiança. Ninguém confia apenas porque quer, não temos o domínio sobre ela. A confiança só se estabelece, porque alguém se manifesta confiável; a confiança não mora em mim, que confio, e, sim, em ti, que se manifestou confiável. Logo, querer estar confiável é condição primeira. Logo, tu és responsável pelo estado de confiança que despertartes em mim.
Essa consciência (superior), que condena uns e salva outros, não necessariamente nessa ordem, atribuiu novos significados as minhas crenças, colocando-me, mais vez, diante da responsabilidade pelo bom uso do meu livre arbítrio e lembrando-me que o presente, o passado e o futuro estão inexoravelmente ligados as minhas escolhas.
E assim, diante da anima mundi, escolhi:
Quero continuar em “estado” crente - fiel, perseverante e confiante no que se manifesta confiável, o que inclui a mim mesma, mesmo quando a recíproca não for verdadeira, mesmo quando admitir o engano for tudo que me resta.
Saí. Bati a porta com o coração pequeno e calmo. Determinada e confiante no futuro joguei a chave fora, não construí nem iluminei pontes e não deixei rastro de miolo de pão, mas olhei para trás, pois queria ter certeza de que não me transformaria em pedra de sal. Caminhei por um longo tempo sob uma chuva fina, que mais parecia um lamento, e aos poucos a vida foi se apresentando a mim plena e confiável.
E eu?
Refiz meus votos de fé no fluxo da vida, pois se nada acontece por acaso, felizes são os acreditam.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Comunicação, democracia e poder

Na semana em que o Estado de São Paulo foi condenado a indenizar, com uma pequena fortuna, os empresários da Escola Base, que no início da década de 90 foram os protagonistas de um dos maiores enganos da imprensa brasileira, por conta da precipitação de uma autoridade policial, julguei pertinente propor algumas reflexões sobre comunicação, democracia e poder.
Para quem não lembra, os três empresários foram acusados, publicamente, de abusar sexualmente dos alunos.
Uma breve visita aos livros, no entanto, se faz necessária para que possamos refletir sobre o sentido e as relações entre essas três palavras.
O vocábulo democracia surgiu por volta do Século V. De origem grega, ele é formado por dêmo, que significa povo, e krat, que quer dizer força ou soberania. Avançado um pouco na semântica podemos dizer que democracia nos remete à prevalência da vontade da maioria e ao respeito do direito de manifestação da minoria.
No Aurélio, constatamos que a palavra comunicação vem do latin communicatione e que significa, entre outros: "ação, efeito ou meio de comunicar. Aviso, informação, participação. Relação, correspondência fácil, trato, amizade. Processo pelo qual idéias e sentimentos se transmitem de indivíduo para indivíduo, tornando possível a interação social".
E no Houaiss, a definição de poder nos reporta a "ter a possibilidade de ter, ter domínio sobre, ter a força física ou moral" e por aí vai.
Em uma breve análise sobre o significado dessas palavras, podemos concluir que ao mesmo tempo em que elas se distinguem, se completam.
Não há processos, verdadeiramente, democráticos sem comunicação, que por sua vez é sinônimo de poder (ter ou ter o domínio de...). Não é de hoje que o poder da comunicação é algo reconhecido e disputado por aqueles que desejam dominar.
No que se refere à mídia, as concessões de emissoras de televisão, no Brasil, são um dos exemplos mais significativos. O sinal da maior emissora do país, a Rede Globo, em boa parte dos estados brasileiro está nas mãos de famílias que há décadas dominam a política ou outras representações de poder, nesses estados. É o caso dos Sarney, no Maranhão, dos Barbalho, no Pará, dos Doau na Amazônia, dos Magalhães, na Bahia e dos Collor de Melo, em Alagoas.
Outro dado importante nesse contexto é o percentual de emissoras de rádio que estão nas mãos de políticos ou pessoas ligadas a eles. Pesquisas recentes dão conta de que esse percentual chega a 70%. Quem quer o poder sabe que dominar os meios de comunicação é uma das formas mais eficientes de chegar a ele ou mantê-lo.
A mídia constrói e destrói imagens (como fez no caso da Escola Base), cria e recria personagens, colocando temas em discussões e pautando o que a sociedade deve pensar. Utilizada dessa forma, a comunicação (midiática) deixa de refletir os anseios do povo, deixa de ser democrática.
Quem ainda não ouviu falar dos movimentos populares em defesa da democratização dos meios de comunicação deve procurar saber mais sobre eles. Pois a causa é nobre. Entre suas lutas estão a legalização das rádios comunitários e a justa distribuição das concessões de rádio e televisão.
Mas voltando ao caso Escola Base, não acredito que uma grana, mesmo que preta, compense os danos morais que aquelas pessoas sofreram. Responsabilizar o Estado não reduz a responsabilidade da imprensa naquele episódio.
Por isso, acredito ser este um bom momento para que as escolas de comunicação rediscutam o tema, avaliando a postura da imprensa, quando a comunicação (midiática) deixa de ser democrática em favor da audiência e, acima de tudo, quanto aos limites éticos que o poder da comunicação impõe àqueles que dela fazem uso.
* Texto publicado no Jornal Folha do Amapá; 2002.
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