
Quando soube que a escola de samba carioca, Beija-Flor, levaria para avenida, em 2008, um tema relacionado à Macapá, minha primeira reação foi de revolta; uma revolta altruísta, pois imediatamente pensei nos ribeirinhos com quem convivi durante minha pesquisa de mestrado, no Bailique, nos moradores das áreas alagadas [as favelas amazônicas], enfim, no povo pobre do meu lugar e no quanto o dinheiro que, certamente, seria investido no carnaval carioca faria falta a eles.
Mas quando li o texto que defendia o enredo da Escola minha Alma Tucuju [índios que povoaram o lugar onde nasci] falou mais alto; era preciso, sim, se fazer conhecer; o Amapá é apenas um dos Brasis que o Brasil não conhece.
A pesquisa sobre Macapá foi de uma sensibilidade insuportável, parecia até um texto do Fernando Canto, do Zé Miguel ou do Joãozinho Gomes... [poetas cantadores do meu lugar].
Comovida, engoli meu orgulho e tratei de pensar como aquela exposição internacional poderia nos beneficiar. Assisti o desfile com o coração nas mãos, a respiração curtinha e a alma em êxtase. Bati no peito pedindo respeito à Beija-Flor, numa traição explícita a Padre Miguel [meu coração, há muito, pertence à Mocidade]... rrss, é!!! Mas minha origem amazônica falou mais alto; naquele momento não era a Beija-Flor, era EU!!!
Apesar da emoção, achei que seria difícil para o público compreender o enredo. No dia seguinte, assistindo, com atenção, o compacto do desfile, percebi o quanto a Globo não ajudou... os comentaristas mal sabiam pronunciar algumas palavras... faltaram explicações básicas... e eles pareciam mais assustados com a beleza da Escola diante de um tema "tão desconhecido" do que preocupados em narrar/esclarecer àqueles que não manjam nada de carnaval ou que apenas se perguntavam: de onde vem essa tal de Macapaba??!!
Aliás, "desconhecido" foi a palavra que resumiu o noticiário dos jornais de maior circulação do país, nos dias que sucederam o desfile... um deles até estampou, na Internet, algo sobre o desconhecido Estado de Macapá, que a Beija-Flor levou para avenida rrsss... Inexistente talvez fosse mais apropriado rrsss
Mas essa não foi a maior aberração, o pior foi suportar o peso da desconhecida Macapaba dar à Beija-Flor o bi-campeonato, num momento em que a Escola tanto precisava do título [por causa das denúncias de manipulação de resultados].
E entre inconformados e vitoriosos com o resultado sobrou para mim [e para Macapaba] o peso do preconceito fundado num desconhecimento vergonhoso [e cheio de má vontade] do Brasil; um preconceito que oscilava entre a indiferença e a ironia carnavalesca [vou te mostrar o meio do meu mundo!!!] rrss é!!! Um preconceito típico de quem não se permite... ao desconhecido.
Em outros tempos, eu partiria para cima, furiosa feito a Pororoca, mas a maldade quase ingênua que nasce da ignorância [no sentido de não saber] emudeceu meu coração; nada do que eu dissesse faria eco... então, pensei nos meus colegas professores, desestimulados com a reforma acadêmica; nos professores leigos do interior amazônico, partilhando seu saber mínimo com os ribeirinhos; no salário curto de gente que tem como função nos salvar da ignorância [e de suas conseqüências]... e fiquei com medo que eles desistissem... e fiquei com medo de desistir... e, então, pensei em mim, nos meus alunos, nas minhas perdas e ganhos em sala de aula: quantos deles eu já havia perdido??!!
A disposição de fazer este Blog nasceu do meu repúdio a todo tipo de violência [física, moral, intelectual, espiritual...] que nasce do "não saber" humano.
Brilho de Fogo é um espaço de reflexão e ebulição, quente como os dias de setembro, em Macapá, assombroso como a Pororoca, forte como os ladrões do Marabaixo, mágico como as ruas do Laguinho, singular como as batidas dos tambores, nas marabaixadas do Curiaú, intenso como as cheias do Amazonas e o verde da Grande Floresta, valente como o briguento Brilho de Fogo, porém suave e marcante como a brisa que emana do Grande Rio, em noites de luar.
Brilho de Fogo é um espaço de reflexão e ebulição, quente como os dias de setembro, em Macapá, assombroso como a Pororoca, forte como os ladrões do Marabaixo, mágico como as ruas do Laguinho, singular como as batidas dos tambores, nas marabaixadas do Curiaú, intenso como as cheias do Amazonas e o verde da Grande Floresta, valente como o briguento Brilho de Fogo, porém suave e marcante como a brisa que emana do Grande Rio, em noites de luar.

3 comentários:
Minha querida Márcia Andréia, tenho no peito muita emoção ao dirigir-me a vc. Primeiro porque vc a medida que faz alguns relatos, me transporta a uma Macapá linda e maravilhosa que eu conheci, segundo porque me faz sofrer em ter que confirmar que dizes muitas verdades quanto ao preconceito que assola nosso País. E em terceiro, me emocionas pelo amor que denotas a esta maravilhosa cidade e que coincide com minhas opiniões e sentimentos que também vivenciei com o que se passou. Enfim, quero parabenizar-lhe pelo Blog e te incentivar a mantê-lo e, quem sabe, possamos através dele, diminuir deste preconceito besta de nosso País. Parabéns Macapá!!! Parabéns Márcia!!! Por isso te admiro e te quero tanto bem, mesmo que a distância e quase que anonimamente.
Do Jorge Trajano (Amazônida por natureza, Cidadão Amapaense de coração).
Prima, adorei a sua manifestação de repúdio (aos ignorantes do saber, do conhecer) e de defesa ao povo e à cultura amazônica em relação ao tema da escola de samba Beija-flor deste ano.
Nós, nordestinos e nortistas, sempre fomos marginalizados pela grande mídia nacional em relação aos nossos valores, nossa cultura, nosso folclore, nossos costumes, nossas lendas, nossas tradições... se preocupando em mostrar apenas as nossas belezas naturais, como se em nossa região só existisse isso de importante, não o povo sério, trabalhador, honrado e orgulhoso de ter nascido nessa região tão linda, tão repleta de beleza, de potencial humano...
Quem sabe, com mais essa frente de batalha nós consigamos enaltecer as belezas e as grandezas dessa nossa região aos incrédulos, aos ingênuos e ignorantes do saber... não é hora de desistir de sermos reconhecidos como membros atuante de uma nação guerreira, valente, vibrante... fazemos parte de uma única nação, um único Brasil e merecemos ser tratado como tal, como um único povo Brasileiro que somos !!!!!!!!!!!
PS: enviarei o endereço do seu Blog para outros primos nossos de Macapá (filhos da tia Carmem, tia Marlene e Tio Tadeu)
Um grande beijo
M Augusto
Valeu encontrá-la no Rio. Eu e a Juliele adoramos a companhia após o show. Abs Carlos Lobato
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