sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Déjà Vu


Todas as vezes que percorria a Rua Leopoldo Machado, no perímetro que corresponde ao Bairro do Trem, a pé ou de ônibus, a imagem daquele homem, na varanda de uma casa erguida na esquina de um dos cruzamentos, me chamava atenção. Sempre sentado numa cadeira de balanço, com os pés apoiados num banco baixo, a ostentar um olhar saudoso.

Era negro, de porte alto e dono de uma careca que reluzia, de tão limpinha de cabelos que era. Aparentava uns sessenta anos, embora algo me dissesse que ele tinha mais.

Quando passava daquela esquina, eu ficava com a imagem dele na mente, por um longo tempo, tentando decifrar seu olhar e o que se passava por dentro de si; a impressão que eu tinha era a de que ele não pertencia mais a este mundo; era como se o seu mundo tivesse se diluído no tempo e se transformado numa imensa saudade.

Durante anos, nossos cotidianos se cruzaram naquela esquina.

Até que um dia, trabalhando numa agência de publicidade, fui escalada para gravar uma entrevista para o programa eleitoral de um candidato ao governo do Estado, na casa de um senhor que se chamava Herundino.

A produção do programa alertou para que eu me preparasse, pois o entrevistado era uma pessoa difícil, devido à idade avançada, mas que estava disposto a dizer o que pensava do candidato; portanto, eu precisaria ser habilidosa e paciente com ele.

Para garantir o sucesso do trabalho, já que a entrevista era uma superprodução, a companheira jornalista, Alcinea Cavalcante, nos acompanharia, pois a mesma era uma grande amiga do meu entrevistado.

Quando cheguei ao local, quase não pude acreditar. Lá estava o moço, ou melhor, o velho, na posição de sempre (a minha espera), a nossa espera.

Pelo menos, agora, eu já sabia o nome dele: Herundino.
E chamando pela sua graça fui logo dizendo a minha, tentando parecer de casa.

Nem foi preciso, pois ele, com um ar de reencontro, disse que já me conhecia; o que na hora não me pareceu estranho, pois o trabalho na televisão acaba por nos deixar um pouco íntimo de todos.

Mas no desenrolar da conversa percebi que não era da imprensa que ele dizia me conhecer, mas sim de um outro lugar que nem mesmo ele sabia precisar.

Enquanto a equipe técnica preparava o ambiente, Herundino falou-me sobre sua longa vida, desde a chegada ao Amapá, passando pela Guarda Territorial, os tempos de craque da bola, até o problema com a perna. Falou com orgulho dos filhos, jogadores profissionais, mostrou fotos e apresentou a esposa referindo-se a ela como “pequena e tão cheirosa”.

Sobre o, então, candidato confessou: “Quando eu era guarda territorial, em plena ditadura, obedecendo a ordens, fui à caça desse menino, mas o bichinho era danado de liso. Já pensou se eu tivesse agarrado ele? Olha o estrago que teria feito!”. E caímos na gargalhada.

Lembro-me que nossa conversa, que mais parecia um reencontro de velhos amigos, encheu de ciúmes a amiga Alcinea, que disparou em tom de mágoa: “É, né, meu velho, agora com a Marcinha aí, tu não quer mais saber de mim!”.

Herundino, sentindo o peso da responsabilidade e do ciúme da amiga de longa data, foi virando a cabeça bem devagar e com um sorriso moleque respondeu com autoridade e carinho: “Eu não costumo trocar amor velho por amor novo”.
E voltou-se a mim retomando nossa conversa como se nada tivesse acontecido.

O velho guarda territorial buscou minha presença em todos os arquivos de sua memória – e que memória! Mas o máximo que conseguiu foi uma remota lembrança do meu avô materno, Antonio, que foi colono ao longo da Estrada de Ferro.

Eu não fiquei triste, pois sabia que a partir daquele momento eu já era parte da sua história. Ele, no entanto, não escondeu a decepção por não ter conseguido me identificar no curso dos seus 80 anos, pois tinha uma certeza intrigante de que já me conhecia.

Herundino recusou-se a trocar a camiseta furada e a gravar na casa da filha, porque ela não compartilhava de suas convicções políticas.

Durante a entrevista, falou sobre o Amapá com amor, saudade e uma profunda esperança em dias melhores. Ao final, chorou.
Choramos com ele.

Nossa amizade foi curta, mas intensa. Pouco mais de seis meses me separam desse dia. Não voltei a visitá-lo, embora sentisse que deveria. Mas sua imagem ficou gravada no meu coração.

No fim de semana passado, soube que o coração do velho guarda pediu parada. Herundino partiu para alçar vôos maiores, em outros planos.

Não fui vê-lo morto; queria guardar sua imagem solitária naquela varanda, de onde sei que ele partiu ao encontro do mundo que só ele via.
Quem sabe não é lá que eu me encontro. Quem sabe não é lá que ele vai reencontrar as memórias de mim.


* Texto publicado originalmente sob o título "O homem solitário da varanda"; Macapá: Jornal O Liberal, 1999.
O candidato mencionado é João Capiberibe, que por oito anos governou o Amapá, contribuindo, definitivamente, para a consolidação da identidade cultural do nosso povo e por muitos dos dias melhores que meu velho amigo, por tantos anos, esperou.
Herundino é pai dos ex-jogadores de futebol: Bira, campeão brasileiro pelo Internacional de Porto Alegre (RS), no final dos anos 70, e Aldo Silva, uma das estrelas do Fluminense, nos anos 80.

Um comentário:

Alcinéa Cavalcante disse...

Marcinha, sinto muita saudade do meu velho Herundino. Ele foi um dos grandes amigos e dos mais importantes amigos que tive, foi meu guru e em muitos momentos fez também o papel de pai.
Veja como são as coisas, Herundino e Joana foram amigos dos meus pais. Uma amizade que começou em Belém, ainda na juventude e todos solteiros na época... daí dá pra imaginar o carinho que eu tinha por ele e o que ele tinha por mim.
Sinto muita saudade dele, dos conselhos dele e da "molecagem" dele.