sábado, 16 de fevereiro de 2008

O missionário da luz


E olhando no fundo dos olhos da minha alma antiga, ele disse:

“A borboleta aos poucos se transformava no casulo... lenta e vagarosa... dia após dia... parecia que nada acontecia ali dentro. Foi, então, que o homem decidiu cortar aquela trouxinha esquisita. Logo, uma borboletinha frágil e cambaleante brotou. Que felicidade! Pensou o homem. Mas os dias se passavam e ela não voava. Suas asas, frágeis e atrofiadas, lhes aprisionavam. E foi, então, que o homem percebeu o quanto o esforço que aquele animalzinho faria para se transformar e sair do casulo por uma passagem estreita e no momento certo, agora, lhe fazia falta. Era esse esforço que daria a ela o vigor necessário para voar e colorir o mundo, cumprindo, assim, a sua missão. Mas a borboleta passou o resto da vida de asas atrofiadas. Assim são as coisas na vida terrena. Tudo tem seu tempo e o tempo de Deus não é o mesmo do homem. Quantas vezes não reclamamos do esforço excessivo empreendido na busca de um objetivo? Por ter que perseverar? Quando tudo diz: desista! Por ter que acreditar? Quando tudo diz: acabou! Por ter que recomeçar? Quando tudo diz: você já teve a sua chance! E tudo isso sem saber que são esses momentos que nos tornarão capazes de voar.”

Quem me contou essa história foi o irmão André; num Dia Cinza.

Dias cinzas são longos e dolorosos; são dias em que não tenho forças para voar; são dias em que penso que jamais voarei.

O irmão André não me conhece, mas eu sei que ele e!

Comecei a prestar atenção em suas palavras por um motivo fútil [típico de espíritos que ainda têm muito a evoluir]: ele atropela a concordância verbo-nominal quando fala. O que [acreditem!] em nada atrapalha a sua comunicação; ele não fala aos ouvidos.

O irmão André não me conhece, mas eu sei quem ele é!

Eu sempre encontro com ele pelas ruas da Tijuca. Acho até que temos a mesma idade. O irmão André não me conhece, o que não é de se estranhar, afinal, eu sou um rosto perdido entre as centenas de pessoas para quem ele fala sobre a Doutrina Espírita, nas reuniões do Centro em que freqüento.

É... eu sou um espírita/cristão! O espiritismo, segundo Alan kardec, chegou a mim feito brisa, quase sem querer; nem sei ao certo quando deixei de ser católica; lembro-me das aulas de catecismo que ministrava na igreja do bairro em que eu morava, em Macapá, e das crianças em conflito com as histórias que eu contava sobre a Criação; lembro-me das perguntas que eu fazia ao padre e das respostas que não me convenciam [nem a mim, nem às crianças]; lembro-me do tempo de um vazio espiritual; lembro-me das primeiras lições espíritas; dos primeiros livros lidos e da paz que eu sentia/sinto, a cada nova centelha.

Mas como eu ia dizendo... é por tudo isso que o irmão André não me conhece, mas eu sei quem ele é!

Outro dia, encontrei o irmão André na minha rua. Ele me olhou com uma cara de nada; e eu, com uma cara de tudo, lhe dediquei um largo e fraterno sorriso de agradecimento.

Ele não deve ter entendido nada, pois nem imagina que a sua história da borboleta de asas atrofiadas fez meu dia cinza amanhecer, Cheio de Luz.

Ele não deve ter entendido nada, pois nem imagina que o Missionário da Luz não me conhece, mas que eu sei quem ele é!

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