Outro dia, tive acesso a um texto sobre imparcialidade na profissão jornalística que me deixou um tanto incomodada. O artigo intitulado 'A distância como virtude', assinado pelo teórico português Antonio Fidalgo, defende a tese de que o bom jornalista deve manter-se à distância do acontecimento de modo a relatá-lo sem envolver-se com ele. Isso, em outras palavras, significa que o jornalista deve, literalmente, sair de si, no ato da prática profissional.
O pesquisador chega a afirmar que “quem está mergulhado no curso dos acontecimentos não tem a perspectiva necessária para discernir o que é, do que não é notícia”, o que não deixa de ser verdade, porém o que me intriga é: quando não se está envolvido com o acontecimento?
Principalmente se considerarmos que cada vez mais os profissionais (jornalistas) vêm se especializando (economia, moda, segurança, direito do consumidor, cultura, política e etc), porque finalmente entendeu-se que o destino do jornalista que sabe de tudo um pouco é o abismo da superficialidade, pois no fundo no fundo ele não sabe de coisa alguma. E isso não se refere só àqueles que atuam na produção de textos, os fotógrafos estão seguindo o mesmo caminho.
Ao torcer o nariz para a teoria de Bresson (todo acontecimento tem um momento decisivo), Sebastião Salgado acrescentou que o fotojornalista especialista no fato que está cobrindo tem muito mais chances de flagrar o momento decisivo do que aquele que passou a vida na geral.
Só quem fez o caminho inverso em qualquer profissão é que consegue dimensionar, sem maiores dificuldades, como é difícil aceitar alguns postulados teóricos que sabemos que na prática não se realizam, ou pelo menos, não plenamente.
Na verdade, o que ocorre é que antes de ser qualquer profissional somos humanos, temos valores, credos, conceito e pré-conceitos acumulados ao longo de nossa existência e que nos acompanham também no exercício de uma profissão.
Há uns anos, fui entrevistar um homem que havia se disfarçado de mulher para atrair a companheira a um determinado lugar e tentar matá-la. Eu estava apavorada, mas ao olhar para aquele homem meu primeiro sentimento foi o de pena. Ele era um quase assassino frio, mas que estava profundamente perturbado pela paixão doentia que sentia pela mulher, que o rejeitava.
Nada justificava a sua atitude (pensei nos meus), mas nem as evidências objetivas do seu ato conseguiram fazer-me deixar de ficar penalizada com a situação de demência que ele se encontrava. E, naquele momento, contar aquela história foi quase uma dor, pois nenhum telespectador olharia aquele homem com eu (sem a mediação da televisão), por mais “imparcial” que fosse o meu relato.
Ver aquele sujeito como algoz e ao mesmo tempo vítima (de si mesmo) deixou-me profundamente confusa, pois eu não estava ali para sentir. E esse foi o estopim da minha desconfiança com essa tal imparcialidade, que com o tempo fui descobrindo trata-se de um dos mitos mais charmosos da profissão de jornalista, não só por sermos humanos e, como tais, incapazes de olhar as coisas sem o filtro dos nossos referenciais, mas também porque, além dos nossos valores ainda há os da empresa para a qual trabalhamos.
É só abrir os jornais, diariamente, para se constatar nas manchetes tendenciosas, nas matérias superficiais ou descontextualizadas que tudo é produzido, selecionado e organizado de modo a buscar algo além do puramente informar. Como ser imparcial ante dois mediadores tão poderosos (nós e a empresa).
Se essa história de distância dos fatos for levada ao pé da letra, os assessores de imprensa já devem estar ardendo no mármore do inferno, pois essa atividade vai de encontro aos mais nobres sentimentos de imparcialidade que alguém já pôde ter estabelecido.
Mais isso é papo para uma outra reflexão.
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