sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um olhar inquebrantável sobre Brasília


Acostumada ao calor de 40 graus desta terra, chegar em Brasília com aqueles 18 graus foi uma experiência friamente inesquecível. Ansiava por um suorzinho... e nada

Nos intervalos do trabalho, quando o sol despontava, tímido, no horizonte do Planalto Central, ficava eu sentada no meio da Praça da Torre de Tv, feito cachorro pressentindo doença - quietinho sob o sol – me aquecendo.

E foi lá que conheci Francisco, 75 anos, mais um, entre tantos nordestinos que vivem perambulando pelas ruas da capital federal.

Sentando embaixo da copa de uma árvore frondosa, o velho montava, com restos de tábuas, uma pequena caixa.

Aproximando-me quis saber sobre ele. Era do Maranhão. Quando eu disse que vinha do Amapá, ele sorriu, sarcasticamente, e me indagou, como se quisesse me sacanear: É lá que o Sarney é Senador?

Demonstrando uma leve irritação, pedi para mudar de assunto e, enquanto ele falava, observei que sua imagem trapulenta contrastava com a do Congresso Nacional, erguido ao fundo.

Brasília fervia.

Hildebrando Pascoal fôra cassado e preso naquela semana. A imprensa nacional, ávida, cobria cada passo do acontecimento... e, pensando sobre isso, as imagens publicadas iam se fundindo em minha mente até chegar a de Juscelino e seu olhar inquebrantável sobre o Palácio da Alvorada.

Achei aquilo modernamente irônico.

Aproximei-me daquele busto e olhei bem nos olhos dele, que mirava impassivo o Palácio, como um vigilante ausente. Ao lado, a seguinte transcrição:

“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande futuro”. JK, 2 de outubro de 1956.

Seu Chico – a essa altura já éramos amigos – me contou que dormia há um ano na rodoviária do Distrito Federal e que vivia de esmolas. Veio para Brasília se aposentar. Conseguiu. Mas há meses esperava pelo primeiro salário.

Nossa conversa caminhava para o fim, quando um sujeito sorridente e maltrapilho nos interrompeu com um boa tarde inesperado.
Assustei-me!

Imediatamente, o sujeito começou a subir numa escada engatada no tronco da árvore.
E eu, curiosa, fui logo perguntando ao Chico o que ele ia fazer lá em cima. E o velho, com tranqüilidade e sem retirar os olhos do que estava fazendo, respondeu-me: Ele mora lá!
Olhei para cima e me deparei com uma pequena casa construída com restos de madeira na copa da árvore.

Angustiei-me!

Saí dali sem me despedir e com o coração nervoso.
O coitado morava no endereço mais ilustre de Brasília: Praça da Torre de Tv, esquina com o Setor Hoteleiro, fundos com o Congresso Nacional – Altos.

Que loucura! [pensei]

Numa cidade onde tantos Hildebrandos e Nayas circulam com suas caras, bocas, sotaques, mentes e ternos diferentes, um mendigo residia feliz no Plano Piloto.

Voltei para casa naquele mesmo dia, deixando Juscelino a lançar seu olhar de fé inquebrantável sobre a alvorada brasiliense, refletindo, talvez, sobre não ser esse o futuro que anteviu naquele 2 de outubro de 1956.


* Texto publicado em Macapá: Jornal Geração, 1999.

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