
Acostumada ao calor de 40 graus desta terra, chegar em Brasília com aqueles 18 graus foi uma experiência friamente inesquecível. Ansiava por um suorzinho... e nada
Nos intervalos do trabalho, quando o sol despontava, tímido, no horizonte do Planalto Central, ficava eu sentada no meio da Praça da Torre de Tv, feito cachorro pressentindo doença - quietinho sob o sol – me aquecendo.
E foi lá que conheci Francisco, 75 anos, mais um, entre tantos nordestinos que vivem perambulando pelas ruas da capital federal.
Sentando embaixo da copa de uma árvore frondosa, o velho montava, com restos de tábuas, uma pequena caixa.
Aproximando-me quis saber sobre ele. Era do Maranhão. Quando eu disse que vinha do Amapá, ele sorriu, sarcasticamente, e me indagou, como se quisesse me sacanear: É lá que o Sarney é Senador?
Demonstrando uma leve irritação, pedi para mudar de assunto e, enquanto ele falava, observei que sua imagem trapulenta contrastava com a do Congresso Nacional, erguido ao fundo.
Brasília fervia.
Hildebrando Pascoal fôra cassado e preso naquela semana. A imprensa nacional, ávida, cobria cada passo do acontecimento... e, pensando sobre isso, as imagens publicadas iam se fundindo em minha mente até chegar a de Juscelino e seu olhar inquebrantável sobre o Palácio da Alvorada.
Achei aquilo modernamente irônico.
Aproximei-me daquele busto e olhei bem nos olhos dele, que mirava impassivo o Palácio, como um vigilante ausente. Ao lado, a seguinte transcrição:
“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande futuro”. JK, 2 de outubro de 1956.
Seu Chico – a essa altura já éramos amigos – me contou que dormia há um ano na rodoviária do Distrito Federal e que vivia de esmolas. Veio para Brasília se aposentar. Conseguiu. Mas há meses esperava pelo primeiro salário.
Nossa conversa caminhava para o fim, quando um sujeito sorridente e maltrapilho nos interrompeu com um boa tarde inesperado.
Assustei-me!
Imediatamente, o sujeito começou a subir numa escada engatada no tronco da árvore.
E eu, curiosa, fui logo perguntando ao Chico o que ele ia fazer lá em cima. E o velho, com tranqüilidade e sem retirar os olhos do que estava fazendo, respondeu-me: Ele mora lá!
Olhei para cima e me deparei com uma pequena casa construída com restos de madeira na copa da árvore.
Angustiei-me!
Saí dali sem me despedir e com o coração nervoso.
O coitado morava no endereço mais ilustre de Brasília: Praça da Torre de Tv, esquina com o Setor Hoteleiro, fundos com o Congresso Nacional – Altos.
Que loucura! [pensei]
Numa cidade onde tantos Hildebrandos e Nayas circulam com suas caras, bocas, sotaques, mentes e ternos diferentes, um mendigo residia feliz no Plano Piloto.
Voltei para casa naquele mesmo dia, deixando Juscelino a lançar seu olhar de fé inquebrantável sobre a alvorada brasiliense, refletindo, talvez, sobre não ser esse o futuro que anteviu naquele 2 de outubro de 1956.
* Texto publicado em Macapá: Jornal Geração, 1999.
Nos intervalos do trabalho, quando o sol despontava, tímido, no horizonte do Planalto Central, ficava eu sentada no meio da Praça da Torre de Tv, feito cachorro pressentindo doença - quietinho sob o sol – me aquecendo.
E foi lá que conheci Francisco, 75 anos, mais um, entre tantos nordestinos que vivem perambulando pelas ruas da capital federal.
Sentando embaixo da copa de uma árvore frondosa, o velho montava, com restos de tábuas, uma pequena caixa.
Aproximando-me quis saber sobre ele. Era do Maranhão. Quando eu disse que vinha do Amapá, ele sorriu, sarcasticamente, e me indagou, como se quisesse me sacanear: É lá que o Sarney é Senador?
Demonstrando uma leve irritação, pedi para mudar de assunto e, enquanto ele falava, observei que sua imagem trapulenta contrastava com a do Congresso Nacional, erguido ao fundo.
Brasília fervia.
Hildebrando Pascoal fôra cassado e preso naquela semana. A imprensa nacional, ávida, cobria cada passo do acontecimento... e, pensando sobre isso, as imagens publicadas iam se fundindo em minha mente até chegar a de Juscelino e seu olhar inquebrantável sobre o Palácio da Alvorada.
Achei aquilo modernamente irônico.
Aproximei-me daquele busto e olhei bem nos olhos dele, que mirava impassivo o Palácio, como um vigilante ausente. Ao lado, a seguinte transcrição:
“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande futuro”. JK, 2 de outubro de 1956.
Seu Chico – a essa altura já éramos amigos – me contou que dormia há um ano na rodoviária do Distrito Federal e que vivia de esmolas. Veio para Brasília se aposentar. Conseguiu. Mas há meses esperava pelo primeiro salário.
Nossa conversa caminhava para o fim, quando um sujeito sorridente e maltrapilho nos interrompeu com um boa tarde inesperado.
Assustei-me!
Imediatamente, o sujeito começou a subir numa escada engatada no tronco da árvore.
E eu, curiosa, fui logo perguntando ao Chico o que ele ia fazer lá em cima. E o velho, com tranqüilidade e sem retirar os olhos do que estava fazendo, respondeu-me: Ele mora lá!
Olhei para cima e me deparei com uma pequena casa construída com restos de madeira na copa da árvore.
Angustiei-me!
Saí dali sem me despedir e com o coração nervoso.
O coitado morava no endereço mais ilustre de Brasília: Praça da Torre de Tv, esquina com o Setor Hoteleiro, fundos com o Congresso Nacional – Altos.
Que loucura! [pensei]
Numa cidade onde tantos Hildebrandos e Nayas circulam com suas caras, bocas, sotaques, mentes e ternos diferentes, um mendigo residia feliz no Plano Piloto.
Voltei para casa naquele mesmo dia, deixando Juscelino a lançar seu olhar de fé inquebrantável sobre a alvorada brasiliense, refletindo, talvez, sobre não ser esse o futuro que anteviu naquele 2 de outubro de 1956.
* Texto publicado em Macapá: Jornal Geração, 1999.

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