
Olhei-me. Estava bem. Um pouco cansada, mas estava bem. Ensaiei três sorrisos: um frouxo, um tímido e um meio sem graça. Na dúvida, entre qual deles usar, quando chegasse a hora, senti-me ridícula e resolvi ser eu mesma.
Perdida nesse conflito, nem percebi que o dispositivo eletrônico da porta havia captado minha presença fazendo com que ela se abrisse de súbito. Não consegui lembrar de nenhum dos sorrisos ensaiados - nem que havia decidido desistir deles.
Também não havia necessidade, ninguém estava a minha espera.
Quase entrei em pânico; depois resolvi me acalmar e agir como um turista reincidente.
Assim, desembarquei no Aeroporto Internacional do Galeão, na Cidade do Rio de Janeiro, no fim de uma ensolarada manhã de março.
Sem ninguém a minha espera, quase sem nenhum no bolso e com a responsabilidade de passar as melhores impressões do meu povo, mais uma vez resolvi agir; tentei comprar um cartão telefônico, mas a máquina não aceitou meu dinheiro amassado.
Peguei um táxi. E entre uma palavra e outra com o motorista ia tentando disfarçar meu deslumbramento com aquelas montanhas cobertas por camadas de um verde inspirador. Eram tantas que por alguns instantes desejei ser um daqueles monstros da mitologia grega – cheio de olhos – para melhor apreciar tanta beleza.
O motorista, a toda hora, se desculpava pelas favelas que aqui e acolá apareciam e pelo mau cheiro da poluída Baía de Guanabara. Eu? Abstraía só a beleza.
Daquele dia, no táxi, até minha partida do Rio, se passaram nove dias e muitas foram as descobertas; uma delas foi a de Copacabana.
Cheguei a ela de metrô. Com a coragem sabe Deus de quem, entrei e saí do transporte como se fôssemos velhos conhecidos. Caminhei um pouco e lá estava ela: a Princesinha do Mar.
Quando pisei na areia e avistei o céu muito azul, as montanhas de um lado e o mar do outro, chorei. Involuntariamente, ridiculamente, intensamente, chorei. Era como se estivesse revendo algo que já conhecia. Por alguns instantes tive a impressão de estar matando uma imensa saudade.
Na praia, me impressionei com o trânsito democrático de prostitutas, homossexuais e intelectuais; cada um no seu micro-mundo. Mas nenhum personagem me impressionou tanto, quanto os idosos. Ah! Como são ativos, dispostos, joviais e jogam frescobol melhor do eu – qualquer um joga aquilo melhor do que eu.
Voltei lá só mais uma vez. Revi Célia e Celi – duas boas e “velhas” amigas que me constrangeram com seus biquínis coladinhos em corpos com mais de sessenta; as tartarugas do meu maiô, coladinho no corpo de vinte cinco, queixaram-se depois.
Em Copacabana também vi Clarice (Lispector); deixando suas asas de anjo dobradas no banco de trás do táxi. Ela lembrou-me que a coisa mais bela da vida é um momento de inspiração e com aquele ar de madrasta da Branca de Neve disse-me, sem olhar para trás: Ao escrever, pelo amor de Deus, não esmague as entrelinhas.
Saí do teatro com vontade de falar, falar, falar (falei!) e depois escrever até a exaustão. Lá, decidi: vou escrever para o teatro. Acho que consigo. Quando? Logo!
Fui à Niterói, ao Forte, à Ilha, à Glória. Fomos glória numa noite linda. Fomos glória sob o olhar atento (e safado) de D. Pedro I, encravado numa parede e cercado por uma bela moldura. Ele? Enigmático, estático, burocrático, asmático. Eu? Sóbria, até a alma.
Comi queijo com doce de leite, aipim, calzone, comida japonesa.
Devorei Mario Prata.
Vi o Cristo (redentor) de longe. Ele? Ora me olhava de frente, ora me olhava de lado, ora me dava às costas, mas estava sempre por perto – como se quisesse se certificar de que eu faria tudo como havíamos combinado.
Tomei banho de mar; engoli o mar, que me saudou com um banho de areia, que me expulsou, como persona non grata, mas que depois chamou-me, seduziu-me, como se quisesse-me para ele. Não tive medo. Fui!
Voltei!
No Rio, relembrei uns conceitos de geografia: lago, lagoa, baía e golfo.
Então, assim como o mar avançou sobre o Rio para fazer nascer a Baía de Guanabara, o Rio avançou sobre mim, feito mar, formando um imenso golfo são, Paulo.
Perdida nesse conflito, nem percebi que o dispositivo eletrônico da porta havia captado minha presença fazendo com que ela se abrisse de súbito. Não consegui lembrar de nenhum dos sorrisos ensaiados - nem que havia decidido desistir deles.
Também não havia necessidade, ninguém estava a minha espera.
Quase entrei em pânico; depois resolvi me acalmar e agir como um turista reincidente.
Assim, desembarquei no Aeroporto Internacional do Galeão, na Cidade do Rio de Janeiro, no fim de uma ensolarada manhã de março.
Sem ninguém a minha espera, quase sem nenhum no bolso e com a responsabilidade de passar as melhores impressões do meu povo, mais uma vez resolvi agir; tentei comprar um cartão telefônico, mas a máquina não aceitou meu dinheiro amassado.
Peguei um táxi. E entre uma palavra e outra com o motorista ia tentando disfarçar meu deslumbramento com aquelas montanhas cobertas por camadas de um verde inspirador. Eram tantas que por alguns instantes desejei ser um daqueles monstros da mitologia grega – cheio de olhos – para melhor apreciar tanta beleza.
O motorista, a toda hora, se desculpava pelas favelas que aqui e acolá apareciam e pelo mau cheiro da poluída Baía de Guanabara. Eu? Abstraía só a beleza.
Daquele dia, no táxi, até minha partida do Rio, se passaram nove dias e muitas foram as descobertas; uma delas foi a de Copacabana.
Cheguei a ela de metrô. Com a coragem sabe Deus de quem, entrei e saí do transporte como se fôssemos velhos conhecidos. Caminhei um pouco e lá estava ela: a Princesinha do Mar.
Quando pisei na areia e avistei o céu muito azul, as montanhas de um lado e o mar do outro, chorei. Involuntariamente, ridiculamente, intensamente, chorei. Era como se estivesse revendo algo que já conhecia. Por alguns instantes tive a impressão de estar matando uma imensa saudade.
Na praia, me impressionei com o trânsito democrático de prostitutas, homossexuais e intelectuais; cada um no seu micro-mundo. Mas nenhum personagem me impressionou tanto, quanto os idosos. Ah! Como são ativos, dispostos, joviais e jogam frescobol melhor do eu – qualquer um joga aquilo melhor do que eu.
Voltei lá só mais uma vez. Revi Célia e Celi – duas boas e “velhas” amigas que me constrangeram com seus biquínis coladinhos em corpos com mais de sessenta; as tartarugas do meu maiô, coladinho no corpo de vinte cinco, queixaram-se depois.
Em Copacabana também vi Clarice (Lispector); deixando suas asas de anjo dobradas no banco de trás do táxi. Ela lembrou-me que a coisa mais bela da vida é um momento de inspiração e com aquele ar de madrasta da Branca de Neve disse-me, sem olhar para trás: Ao escrever, pelo amor de Deus, não esmague as entrelinhas.
Saí do teatro com vontade de falar, falar, falar (falei!) e depois escrever até a exaustão. Lá, decidi: vou escrever para o teatro. Acho que consigo. Quando? Logo!
Fui à Niterói, ao Forte, à Ilha, à Glória. Fomos glória numa noite linda. Fomos glória sob o olhar atento (e safado) de D. Pedro I, encravado numa parede e cercado por uma bela moldura. Ele? Enigmático, estático, burocrático, asmático. Eu? Sóbria, até a alma.
Comi queijo com doce de leite, aipim, calzone, comida japonesa.
Devorei Mario Prata.
Vi o Cristo (redentor) de longe. Ele? Ora me olhava de frente, ora me olhava de lado, ora me dava às costas, mas estava sempre por perto – como se quisesse se certificar de que eu faria tudo como havíamos combinado.
Tomei banho de mar; engoli o mar, que me saudou com um banho de areia, que me expulsou, como persona non grata, mas que depois chamou-me, seduziu-me, como se quisesse-me para ele. Não tive medo. Fui!
Voltei!
No Rio, relembrei uns conceitos de geografia: lago, lagoa, baía e golfo.
Então, assim como o mar avançou sobre o Rio para fazer nascer a Baía de Guanabara, o Rio avançou sobre mim, feito mar, formando um imenso golfo são, Paulo.
*Este texto tem quase dez anos e apesar de ingênuo e meio deslumbrado é de uma honestidade comovente... mas gosto dele, antes de tudo, porque o escrevi sem imaginar que depois dessa viagem nada mais seria como antes.

2 comentários:
É, e nada mais foi como antes ...
Parabéns pelo texto e obrigado por ele.
não entendi pq saí anônimo. Vou tentar de novo.
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