sábado, 22 de março de 2008

Quando eu coloria histórias sobre Ele


Às vezes, assusta-me a proximidade que tenho com Ele.
Não o temo. Jamais o ignoro.
Tudo agora se resume à contemplação e respeito.

Levei, pelo menos, uns 30 anos para transformar minha relação com o Cristo. E, hoje, posso dizer que há três passagens, no Evangelho, que marcaram essa trajetória de transformação: Os quarenta dias no deserto, Jesus no Monte das Oliveiras e César a indagá-lo sobre sua coroa, seu reino e seus súditos, antes lavar as mãos. Mas para chegar a elas percorri um longo e, por vezes, torto caminho.

Quando nasci, meus pais decidiram que eu seria católica. Assim, fui batizada e na impossibilidade biológica de fazer os votos de cristã alguém os fez por mim, mas eu mesma os renovei, anos mais tarde, ao aceitar o sacramento da Crisma.

Cresci colorindo pequenos livros com passagens do Evangelho: Jesus o pescador, Jesus nas Bodas de Caná, Jesus caminhando sobre as águas; Jesus no Sermão da Montanha, Jesus multiplicando os pães, enfim, Jesus em todas as suas faces de absoluto (Deus).

Minha educação formal começou num Jardim de Infância católico, construído nos fundos de uma igreja. Posso ver-me, agora, debruçada sobre uma pequena mesa azul, entre lápis e pincéis coloridos, a decidir quais as cores mais apropriadas para cada história.

Ao final da atividade, a professora nos fazia mostrar as pinturas e nos contava a história delas. Fui alfabetizada na cartilha cristã.

O tempo passou e a vida, aos poucos, foi me mostrando que aquelas não eram as únicas histórias que se contavam sobre o Nazareno. Por algum motivo, que eu ainda não compreendia, a igreja hierarquizava essas histórias, recortando e limitando o nosso modo pensar Jesus.

E foi assim, por esse caminho torno, que aprendi a amar, profundamente, os ensinamentos daquele homem-deus.

O medo, de não fazer o que deveria ser feito; a incerteza, sobre qual a melhor decisão; a culpa, por não ser santo; a falta de fé, naquilo que não sou capaz de ver; o pecado, que me condenava ao inferno e a dúvida, sobre a vida e a morte, ora me afastavam, ora me aproximavam desse homem-deus.

Até que um dia, olhando no fundo da minha alma antiga, e sem palavras, Ele me fez compreender a maior de todas as minhas verdades: Jesus me ama, porque, antes de tudo, foi homem como eu.

E isso sempre esteve nas escrituras, talvez não tão claro naquela seleção de histórias que eu coloria, mas sempre esteve lá.

Os quarenta dias no deserto. A fome, a sede e as tentações e alucinações estão entre as manifestações mais humanas que conheço. Elas simbolizam nossas necessidades biológicas, materiais, mundanas, espirituais, mentais e animais. O deserto é a metáfora do mundo. A todo instante, dentro do nosso deserto, sentimos fome e sede pelo que nos pertence, ou não; temos alucinações sobre sonhos possíveis, ou não; somos tentados, traídos, amados e odiados e ainda afrontados pelo direito-deve da Escolha. Jesus escolheu, mas não sem antes ir ao deserto, em que nos encontramos.

Indagado, por César, sobre sua coroa, seu trono e seus súditos, Jesus apenas disse: Meu reino não é deste mundo! Demonstrando absoluta fé naquilo que só ele via. Aceitando, mesmo sem compreender, que era preciso cumprir sua Via Crucis. E se um homem pôde acreditar, fielmente, naquilo que só ele via, por que eu não?

Mas a passagem mais fascinante é a prece no Monte das Oliveiras, momentos antes de ser preso. Ali, Jesus se coloca como o mais frágil dos humanos. Completamente apavorado, diante do horror que estava prestes a viver, e prostrado diante de um Pai que só ele via, ele teve Medo. E eu também tenho.

Às vezes, assusta-me a proximidade que tenho com o Cristo, depois que perdi o medo dele. Suas escolhas, que antes me humilhavam, pela sua natureza divina, agora, me inspiram, assim como suas fraquezas, tão humanas, agora, me libertam.

E ao contrário do que pode parecer, pensar num Cristo, tão humano, quanto eu, só me aproxima ainda mais dele. E apesar de não ter comparecido à cerimônia do Cristo Morto, sinto-me mais cristã do que na época em que coloria histórias sobre Ele.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que belo texto Márcia!!!